Memórias de carnaval

Certo dia da infância, em tempos de carnaval, eu brincava nas ruas da Tijuca. Já era noite, eu no meio dos meninos que sabiam correr. Eu não sabia. Muitas famílias passando fantasiadas para um bailinho por perto.

Um bate-bola passou com um grupo de pessoas, meus amiguinhos cantaram “bate-bola, bate o pé que tem medo de mulher, se for homem vem aqui, se for ‘bixa’ fica aí!” (eu até hoje não acredito ter cantado junto, mas há dúvidas…). Infelizmente, as pessoas ainda se sentiam ofendidas por serem chamadas de bixa (mulher)…

Consequentemente, o rapazinho saiu correndo atrás dos meus amiguinhos. Eles correram, eu corri. O rapazinho era maior que nós, os meninos não deram conta e se esconderam embaixo de uma Kombi… Eu corri sem rumo sei lá pra onde… Fui encurralada.

O mascarado me olhou nos olhos, gesticulou com os dedos na frente do meu rosto como um mágico citando o “abra-cadabra” e disse com uma voz idêntica a do Esqueleto do He-man: “prometa que vc nunca mais vai mexer com um bate-bola”. Claro que eu prometi!
Ainda lembro daquela máscara assustadoramente linda, porém, claro, naquele momento, só assustadora mesmo.
Do outro lado da rua, a mãe ou irmã gritando pra ele voltar logo.

E eu, tenho cumprido piamente a promessa.

Algo inusitado aconteceu…

Algo inusitado aconteceu… Passando de carro pela via chamada Linha Amarela, um objeto entra pela janela e atinge na parte lateral da cabeça do motorista, meu nego. Ele grita, eu grito.
Pergunto, preocupadíssima, o que aconteceu, ele responde que algo o atingiu, mas não sabe o quê.
Dandara prontamente diz “foi um passarinho!” e aponta para as costas do pai. Olho e vejo o bichinho agarrado na camisa dele, que faz um movimento mais brusco sem ainda notar o que está acontecendo, e o passarinho voa para o banco de trás, onde estou com Dandara.
Agora eu que faço um movimento, um pulo rápido para sair da rota de voo da ave.
Fico praticamente sentada no colo de Dandara e o passarinho para no cantinho do banco, assustado, tentando enfiar a cabecinha na fresta entre o assento e o encosto do banco.
Tudo acontece muito rapidamente e a essa altura do imbróglio, o nego já entendeu a situação e está concentrado em parar o carro para a retirada o serzinho.
Eu, imóvel, no colo de Dandara. Nego, alerta, dizendo calma, Dandara tentando me empurrar porque queria fazer carinho no passarinho e não parava de falar e pedir para que eu a deixasse pegar o bichinho.
Enfim, paramos. Eu dou outro pulo, mas para fora do carro, o nego abre a porta e dá liberdade ao pássaro, umas palavrinhas e risadas são trocadas e seguimos nosso caminho.
Dandara lamenta não ter acariciado o passarinho, nego lamenta o furinho machucado na cabeça e pede para que eu escreva sobre o ocorrido, enquanto eu fico falando sem parar “que inusitado, que inusitado…”.