Gritos do racismo: só não ouve quem não quer.

brasilDia 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Eu, negra, fui passear com minha família, negra. Fomos ao shopping. Vimos muitos negros passeando lá, como nós, porém, dentro de lojas e restaurantes, a quantidade de negros consumindo era ínfima ou nula. Feriado, shopping cheio.

Andando, vimos as moças da limpeza, a maioria negra. Num quiosque daqueles em que o café é caro e o pão de queijo também, observamos os atendentes e os clientes sentados na ilha de mesas e cadeiras cercadas, atendentes negros e clientes todos brancos.

Almoçamos em um restaurante que deveria caber umas duzentas pessoas sentadas. Estava lotado. Haviam duas famílias negras, a minha e um casal.

Entramos numa loja de departamentos para procurar um produto, os únicos negros que vi foram dois, mãe e filho.

Passamos também em uma loja que vendia sorvetes, ou melhor picolés, bem caros para simples picolés, mas saborosos demais para simples picolés. Compramos os picolés e nos sentamos dentro da loja. Ficamos ali quase dez minutos. O local estava bem movimentado, não parava de formar filas, mesmo que pequenas, no caixa. Vi dois negros, uma mulher olhando o cardápio e um rapaz que tentou comprar com um cartão refeição, que não era aceito pelo estabelecimento.

Um simples passeio, durante uma tarde inteira, num shopping do subúrbio do Rio – imagina se fosse num da zona sul! -, me fez perceber os gritos do racismo brasileiro. Se 53% da população é negra – por auto-declaração, sendo assim, sabemos que é ainda é maior, porque tem muito pardo se declarando branco por não ser “tão preto assim…” – como é que pode, num feriado, num shopping lotado do subúrbio – uma área enorme da cidade – durante, pelo menos quatro horas de observação, nem 10% dos clientes consumistas eram negros! Onde estavam os negros com “poder de compra”? Estavam viajando no feriadão? Estavam saudando o feriado da Consciência Negra, participando de eventos extras? Estavam descansando, pois só saem à noite ou pela manhã?

Tem algo muito errado… não é por acaso, não é paranoia, cisma, chatice, esquerdopatice e demais banalizações da mente crítica, é real! Observe ao seu redor!

Agora, observe as cadeias. Mais de 60% da população carcerária é negra! Coincidência? Dizem que se está preso é porque é bandido. Sigamos esta afirmação e pensemos: Por que, então, negros cometeriam mais crimes que brancos? Negros seriam mais vagabundos? Não prestariam para o trabalho ou uma vida digna? Seriam pessoas piores? Nãããão, gente! Isso é racismo, sim! Problematizem essas questões e parem de repetir discursos de ódio e preconceituosos!

Deveria ser assim: negros e brancos comprando no shopping, negros e brancos na cadeia, mas quem domina um espaço é o branco e quem “domina” o outro espaço é o negro. Por quê? Façam esta pergunta!

Desigualdade social, criminalização do negro e, especialmente, um total descaso da sociedade em relação a assuntos importantes como esse fazem parte do pacote. Isso não é vitimar o negro, é uma constatação óbvia, é só observar, não precisa grandes análises… é só olhar pro lado, pra rua, vai ver e ouvir o racismo “gritar”. Abra os ouvidos. E a cabeça.

2 ideias sobre “Gritos do racismo: só não ouve quem não quer.

  1. Poque o negro carrega este fardo tão pesado ?
    Você reparou quantos cadeirantes haviam no shopping ? Com certeza a vontade de estar no shopping havia, mas os obstáculos que ele encontraria no caminho o fez desistir.
    Todos nós brasileiros temos descendência africana. Nosso país é uma miscigenação de raças, talvez por isso somos conhecidos mundialmente pela cordialidade e alegria. Não tem um gringo que não se encante com nosso povo, porem o ser humano de uma forma geral, seja ele branco,negro,amarelo não tem a capacidade de se colocar no lugar do próximo, não tem a escencia do amor dentro de si… Se tivéssemos, não haveria sentimentos com como o seu.
    Você observar que tem mais brancos do que negros em uma posição mais favorável, na minha humilde opinião, também demonstra um certo desamor em relação ao próximo, não foi pra criticar seus comentários, muitíssimo bem colocados, mas para despertar um pensamento diferente e uma possível meditação sobre o assunto de uma forma diferente.
    Paz e bem.

  2. Olá, anônimo. Creio no amor e por ele procuro me preocupar com questões sérias, como o racismo, por exemplo e especialmente. Não me dirigi a indivíduos específicos, mas à sociedade em geral… não considero desamor apontar problemas para serem vistos, abertos e resolvidos. Mas isso depende muito da visão de mundo de cada um. Quanto ao racismo, espero que faça parte da visão de todos, para que seja entendido e abominado de vez.
    Obrigada pelo comentário.

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