A Imprensa! Que Quadrilha!

“Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: […] um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda prova… E assim dominam tudo […] fazem com que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação […]. E como eles aproveitam esse poder que lhe dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis, trabalham para a seleção das mediocridades…
[…] é a mais tirânica manifestação do capitalismo e a mais terrível também […]. São grandes empresas, propriedade de venturosos donos, destinadas a lhes dar o domínio sobre as massas em cuja linguagem falam e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores […]. E por detrás delas estão os estrangeiros, senão inimigos nossos, mas quase sempre indiferentes às nossas aspirações.”

Trecho retirado do livro “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (1909), de Lima Barreto.

Em 100 anos, alguma coisa mudou? Quem “domina” o Brasil ainda é um “jornal”…

Queres ser escritor?

Então queres ser um escritor?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Charles Bukowski