Já refletiu sobre a sua condição de vaca?

Fui chamada de vaca (parte 1)

Morava em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro e trabalhava no Centro do Rio.

Estava grávida de 8 meses, inchada com um tremendo barrigão.

Entrei no trem para ir ao trabalho e me acomodei em pé. 

O trem estava cheio.

Todos os que estavam sentados imediatamente “dormiram”, homens e mulheres.

Tudo bem, já estava acostumada com esse sono repentino que ‘baixa” na pessoa que se vê obrigada a ceder o lugar.

Fiquei em pé.

Em uma das estações, um homem levantou para descer.

Ele estava sentado na minha frente, mas não exatamente, um pouco mais à esquerda.

Exatamente na frente dele havia uma mulher.

Assim que ele levantou e o lugar vagou, passei por baixo do braço da mulher que segurava uma das “alças” de ferro para apoio de quem viajava em pé.

Ela ficou irritadíssima e me chamou de vaca. 

Ela também queria sentar, provavelmente também passaria o dia inteiro no trabalho e no fim do dia ou à noite, voltaria pra casa cansada e em pé num trem cheio, assim como eu.

Eu não era melhor que ela em aspecto algum e gravidez não é doença mesmo, só dá um cansaço maiorzinho e requer sim, alguns cuidados a mais.

Ouvi aquele “vaca” e fiquei sentida demais pra responder. Senti vontade de chorar. Senti muito ódio também e quis não ter barriga, para agredi-la com todo meu furor.

Não fiz nada. Fingi que não escutei e segui a viagem, num sono repentino…

Sempre que entra uma mulher com criança de colo ou grávida, se eu estiver sentada, levanto, mesmo contrariada. Agradeço minhas pernas saudáveis. Se estiver em pé, dou logo um grito avisando que tem uma mulher grávida ou com criança de colo que precisa sentar. Sempre alguém se constrange e levanta. Mas os que estão dormindo, não acordam nem com gritos.

Fui chamada de vaca (parte 2)
Numa das salas do prédio da igreja, amamentava um dos meus filhos.

Havia bastante leite em meu peito. Eu amava amamentar.

Enquanto dava de mamar, conversava com algumas irmãs de fé sobre coisas triviais.

Uma delas, uma senhora, estava em pé na minha frente.

Quando fui passar a criança pro outro peito, espremi o peito e vários jatinhos finos de leite espirraram em cima da irmã, molhando sua roupa, seu rosto, seus óculos.

E ela sorrindo, me chamou de vaca.

Eu gargalhei e fiquei super orgulhosa de ter sido comparada, naquele momento, a uma vaca leiteira.

Terminamos tudo às gargalhadas.

Sobre vaca-mulher e mulher vaca.
“Mãe é mãe, vaca é vaca, mulher é tudo vaca.”

Esta frase pertence a uma música antiga, eu era criança quando ouvia.

A vaca por si só, sendo “só” uma vaca, não presta pra nada?

Que valor tem a mulher que é comparada à vaca? Só tem “valor” se ‘servir’ gerando e alimentando? 

É bom pensarmos nisso. Especialmente, nós, mulheres. É bom pensarmos no que nos fizeram e ainda nos fazem acreditar.

*Recomendo a leitura de O conto da Aia, de Margaret Atwood.

Minha amiga genial


Estou lendo um livro da Elena Ferrante, A amiga genial. Ainda estou no início. Uma leitura por meio de arquivo eletrônico, no celular, no Kindle… Uma leitura descomprometida.

Geralmente, tudo o que leio me instiga a escrever, mas se o tempo e concentração que preciso pra ler já são meio escassos, imagina pra escrever… Não consigo administrar isso e me perco nos pensamentos, que não voltam, não aguardam o tempo ficar disponível, não esperam nada, são muito autoritários, ou é a vez deles ou não será nunca mais.

Por isso, tive que vir escrever, mesmo de madrugada, durante uma leitura despretensiosa dessas pra esperar o sono voltar. Milhares de coisas, dessa vez lembranças passam pela minha cabeça e aproveitei a madrugada silenciosa pra não perder mais um escrito, obedecendo a tal inspiração pra escrever.

Tenho algumas amigas geniais, mas gostaria de destacar uma em especial, uma que parece muito com uma das personagens do livro, uma sobre a qual ainda tenho olhos e amor infantis… Rosilene.
Estudei no que chamávamos de Brizolão, com muitas crianças extremamente espertas e uma delas me marcou demais, uma menina genial.
No livro, que ainda não sei como vai terminar e por isso ainda posso citá-lo, porque depois toda história pode mudar e tudo o que penso agora se desfazer, não havendo semelhança com a vida real que vi ali. 

Rosilene era magra e alta. Pernas longas, pés ligeiros, língua afiada, mãos fortes e um ar moleque descontraído e natural. E era muito inteligente.
Nunca fui de correr – eu não sabia mesmo correr – ou boa jogadora em qualquer esporte que exigisse agilidade corporal e coordenação motora em terra firme – sei nadar muito bem e só. Eu também não fazia amizades com muita facilidade, era meio tímida – ainda um bocado até hoje. Nunca dei muito valor a provar que tinha algum tipo de coragem, tinha coragem na hora q precisava dela e o troço vinha e ponto, acabava depois, até o próximo arroubo. Eu era uma menina simples, simpática e inteligente.

Ela corria, pulava, jogava muito bem queimado ou qualquer outro tipo de jogo com bola, na verdade qualquer outro tipo de jogo. Estava sempre no ranking das primeiras escolhidas a compor times.
Falava tudo o que vinha à mente, era muito abusada e parecia treinar a coragem constantemente.

Se tivesse que bater, batia, não era muito misericordiosa, não. Na adolescência, esse “muito” até sumiu da frase, não era mesmo.

Minha amiga, minha melhor amiga. Ciumenta, absurdamente ciumenta. Eu tinha um orgulho dela… Via tudo como qualidade e curtia tudo. Era muito divertida e debochada, expressiva em tudo o que fazia e falava. Eu era meio inexpressiva, a não ser o sorriso, meu sorriso era resposta pra tudo. A Rosi (sim, com “i”) ria, ela não dava sorrisos, ela ria de alegria ou de deboche, ria dela ou de alguém sem pudor algum. 

Certa vez acho que viajou, não lembro bem, sei que teve que se ausentar da escola por um tempo. Quando retornou tinha um monte de conteúdo que ela havia perdido. O que precisava ler, ela estudou sozinha, mas matemática, sentamos juntas pra estudar. Lembro que nas operações haviam parênteses e muita multiplicação. Ela tirou de letra, fez as provas e se saiu muito bem em tudo.

Nunca foi apegada a nada e me ensinou bastante sobre isso. Tudo ela oferecia e emprestava, eu não. Ela fazia uma cara de indignação e já ia abria a boca pra reclamar, eu rapidamente desdezia o não empréstimo. Chegou um tempo que o que era dela era meu e vice-versa. Ela pensava em mim… Tal roupa vai ficar linda em vc, ela dizia. Era muito dedicada, amigona, parceira, minha defensora em tudo, minha irmã.
Tínhamos a mesma altura, dez quilos de diferença entre uma e outra, crescemos contando isso, da infância a adolescência, sempre dez quilos, eu com os mais, ela com os menos dez.

Passamos por muitas aventuras juntas. Viajando pra São Gonçalo ou hospedadas em Ipanema. No ritmo do baile funk, em casa ouvindo os discos de Caetano, Gil e Cazuza ou caminhando pelas ruas. Sempre eu com ela e ela comigo.

Rosi era tomada de iniciativa, cheia de atitude e de decisão, inclusive pra fazer “merda”. Não tinha meio termo. Enquanto eu pensava ela decidia. E sempre assumia as consequências, nunca a vi fugir de nada. Também não tinha vergonha de voltar atrás, voltava muitas vezes e ficava muito bem com tudo o que fazia. Nunca a vi choramingar pelo “leite derramado”.

Ela nasceu pra viver a vida, não se negar a experiências e mesmo assim manter-se em equilíbrio… Uma equilibrista da vida.

E eu que agora leio lentamente meus livrinhos e me considero “leitora”, lembro perfeitamente dos livros grossos que ela lia aos 12 anos, rapidamente. Leitora nata.
Não é mais uma menina, é avó! Uma avó bem novinha, mas avó. Vai ser daquelas tipo vovozona, pra bagunça, pro deleite, pro cuidado. 
Não fui uma amiga genial, infelizmente, tenho certeza disso.
Também estou certa de que ela tem pessoas geniais pertinho, pros momentos que só amigos podem participar.

Atualmente velho

Durante a Flip, onde o homenageado foi Lima Barreto, ouvi muito que sua literatura se faz atual pois estamos passando por dificuldades que nos remetem ao passado. Ouvi isso com um tom meio que de surpresa, como se tivéssemos evoluído. E tenho lido artigos de incentivo à leitura de certos autores e livros porque o que escreveram há um século ou mais tem sido atual.

Sei lá, eu devo ser muito pessimista, entender as coisas de forma errada ou realmente me falta visão. Quando leio a respeito do Brasil colonial, imperial, não vejo tantos avanços na nossa sociedade.

Li que brasileiro, há mais de um século, tinha mania de grandeza e que pobre queria viver de aparência se achando o europeu ‘evoluído’.
Li que as regalias do imperador e da corte eram possíveis graças ao trabalho esvravo e todo tipo de exploração de mão de obra.
Li que as benesses eram dadas aos seus pares, seus camaradas ou com quem ele ia muito com a cara. E o critério era esse mesmo: ser da mesma estirpe ou simpatizante bem próximo.
Li que a população era analfabeta e atrasada.
Li que as pessoas negras eram violentadas em todos os sentidos que a palavra ‘violência’ possa ter, exclusivamente por serem negras.
Li que a cidade do Rio de Janeiro era um lixo, apesar de muito linda.
Li que as pessoas eram sem educação e sem o devido senso coletivo de preservação.
Li que as mulheres eram servas de seus maridos e criadas para serem belas, recatadas e do lar.
Li que os homens tinham que ser machos machistas para serem homens de verdade.
Li que as fofocas determinavam o futuro do país, simplesmente porque todo mundo acreditava e não possuía o menor filtro pra agir diferente frente às ‘conversinhas’.
Li que essas mentirinhas eram produzidas pelos interessados em se manterem no poder.
Li que as desigualdades eram grandes demais e abusivas. E que quem dominava era o homem branco e sua hereditariedade.
Li sobre a guerra de status entre as mulheres que precisavam manter seu posto caso fosse bom, contra as que precisavam ocupá-lo. Não só o posto de esposa, mas também o de amante eram disputados.
Li que as crianças não tinham vez nem vontades. Estudavam o que a sociedade definia e iam pra onde seus pais definiam, fosse convento, fosse pra ser doutor.
Li que os filhos dos ricos pintavam o diabo, faziam milhares de merdas e saíam sempre ilesos das consequências. Já o filho do pobre pagava mil vezes mais pela merda que lhe era possível fazer. E o filho do preto já tava na merda. Merda e meia. Pra este a consequência era a morte mesmo.
Li que as forças de segurança eram voltadas para assegurar o poder dos mandantes e massacrar o povo caso esse poder e controle fossem ameaçados.

Ainda vejo isso tudo. Com toda tecnologia avançada e um suposto acesso a informação e educação, a dignidade da pessoa humana ainda está constantemente em perigo, tendo que ser equilibrada num tipo de ‘andor’, sempre com cuidado e evitando maiores velocidades nas conquistas pra não cair e quebrar de vez.

Vivo num país melhorado na fachada e mais elaborado na hipocrisia.
Tudo de bom que conquistamos até aqui parece que não tem base sólida. A todo instante prestes a cair, a se desfazer, a retroceder.
Sempre os mesmos caras no poder e, claro, sempre às mesmas regras.

Não creio em perfeição alguma, mas em melhoras consideráveis, pelo menos nas questões racionais de autonomia e preservação da espécie.
Coisa velha, coisa antiga é bom sim, na história, pra não ser repetida, pra ensinar pro futuro, pra evolução, não pra preservação prática, num eterno retardo.
Tá difícil engolir esse Brasil encravado na velhice, tá difícil.

Onde estão nossas lembranças?


Estive procurando fotos impressas dos meus filhos quando bebês, os dois últimos mais precisamente, e não encontrei. Estão nas nuvens ou arquivadas em discos rígidos e até em CD’s, DVD’s e pen drives.

Pessoas munidas de suas câmeras digitais – basicamente aparelhos celulares – tiram fotos à vontade, afinal, há espaço interno suficiente e ainda um cartão de memória com vários Giga.

De uns aninhos pra cá, temos tido essa facilidade de registrar tudo e todos os momentos, em todos os lugares possíveis, nos mais improváveis e até bem inconvenientes. Nos demos ao luxo de gastar nosso “rolo de filme” sem limites de fotos e, infelizmente, de senso também.
Não precisamos mais esperar todos chegarem para uma única foto ser tirada juntos, não precisamos mais controlar o “filme” pra durar uns três meses e para não gastarmos muito tendo que revelar mais de trinta e seis poses. Nem lamentarmos até às lágrimas quando a tão esperada foto sai cortada ou manchada. Podemos verificar isso tudo em tempo real! Imagino o quanto que um fotógrafo das antigas não teria a acrescentar a este trecho do texto…

Com toda essa facilitação, praticidade e por que não prazer, também não temos mais aqueles albinhos que as lojas de revelação nos entregava junto com as fotos para acomodarmos nossas fotinhos na ordem que quiséssemos e guardar nossas lembranças. Também não temos mais a organização, a diligência e o controle da época das únicas 36 poses… Sim, estou generalizando. Admiro muitíssimo quem consegue reservar tempo para selecionar 100 dentre as mil fotos digitas arquivadas, transferir para um pen drive e levar à loja para impressão ou enviar via e-mail. Confesso que já admiraria quem faz a primeira parte, porque a segunda etapa é muito tranquila diante da paciência da primeira.

Sentimos saudades ou vamos lembrar de certas pessoas e momentos quando temos que fazer um backup para formatar um computador ou encontramos um CD ou DVD de fotos perdido em alguma gaveta do armário. Geralmente, é nesses lugares agora que ficam nossas lembranças. Não mais naquela caixa cheia de fotos, que pegávamos em família pelo menos uma vez por ano ou a cada dois para rir, chorar, contar histórias e até fazer a limpa, dependendo do histórico de cada uma.
Tá tudo tão corrido e tão prático, que até as lembranças entraram nesse esquema do momento, longe da nossa memória e menos presente no depois, onde ela seria fundamental.

Leituras e sentimentos

mulhernegra

Interesso-me demais por história. Brasileira, mulher negra, busco entender os primórdios, nossa caminhada até aqui. Tenho lido livros que retratam um pouco do Brasil Império. É impressionante como me sinto excluída da história contada.

Como mulher, a submissão absurda a que fomos submetidas, sem direitos, sem vontades, tivemos que “aproveitar” as chances de um bom casamento, dinheiro e nome. Sermos boas esposas para não perder os “privilégios”, lutar com unhas, dentes e muitas artimanhas e manipulações para nos manter como a “oficial”, não permitindo que nenhuma amante ultrapassasse o limite das “aventuras” masculinas.

Coloquei no plural o parágrafo acima porque também sou mulher, mas sinceramente, isso acontecia entre as mulheres brancas. As narrações da época imperial tratam de mulheres brasileiras vindas de famílias europeias e as próprias europeias que aqui viviam.

As mulheres negras eram as escravizadas, totalmente oprimidas, usadas, tratadas de forma descartável, como coisa, objeto, nem pra ostentar serviam,  a não ser que fosse como bem material, como posse para evidenciar a riqueza e poder do “senhor”.

Não tinham direito a perfumes, joias, roupas decentes, camas confortáveis, boa alimentação. Não davam ordens, não tinham direito à família, seu marido e filhos poderiam ser mortos ou vendidos a qualquer momento e por qualquer motivo, bastava um “senhor” querer. Mulheres brancas sim, por mais tristes que fossem – e deviam ter mesmo uma vida desgraçada – ainda podiam se banhar, dormir, comer e curtir seus filhinhos sem medo de perdê-los por qualquer motivo banal.

A mulher negra não tem sua história contada no Brasil, há que se caçar pesquisas, historiadores, pessoas dedicadas a assuntos específicos relacionados a população negra para termos uma noção, pequena que seja da nossa identidade.

Bem sei que mulheres negras são fortes, ousadas, corajosas. Rainhas e princesas de dinastias africanas. Lideranças proeminentes. Sei, mas não sei detalhes. Observando e pesquisando, aos poucos vamos descortinando a visão.

Caminhos femininos, mas diferentes.

(imagem encontrada via Google)

Mudanças bem-vindas

mudancaMinha primeira postagem no blog data em 2009… Como eu mudei em 7 anos… E dou graças… Talvez eu fosse uma beata “bolsonariana” com a melhor das intenções… Espalharia discurso de ódio achando que estaria praticando o amor, seria, talvez, extremamente preconceituosa – digo extrema porque não sou tanto, mas ainda assim, tenho meus preconceitos. Seria conhecida como uma bênção, mulher de oração, cheia da unção. Talvez eu fizesse um voto de pobreza, o que, sinceramente, não condenaria hoje, porque sei que seria sincero. Estaria entre presídios e hospitais pregando, orando, chorando e sofrendo… o que também não condenaria hoje, considero práticas louváveis e não me eximo ainda de praticá-las, mas de forma diferente.

De pensar que tudo mudou com minha passagem pelo seminário… Como foi doloroso e libertador o tempo em que estive lá, especialmente por descobrir que o tal cristianismo, aprendi em casa, com minha mãe e seu exemplo simples e honesto de ser. Só isso já me bastaria… Porém, essa minha mania de vasculhar tudo, cavar origens, buscar primórdios, me deixa ainda inquieta para desvendar tantos “mistérios”, descobrir tantas verdades, caminhar e caminhar…

Não tenho vergonha do passado recente, me ajuda a ser compreensiva e paciente com quem ainda está lá… cada um tem sua história e suas dores… não é fácil crescer, mas é ruim não querer.

Eu devo estar na fase de “juniôr”, antes da adolescência… sem entender muito bem as reais intenções, achando tudo muito curioso… E estou bem assim, no meu ritmo, no meu tempo, curtindo minha mudança.

 

Quando nos escondemos… (para cristãos, com um pouco de acidez)

Dizemos que nossas carências são supridas por Jesus, dizemos que nossa vida está a serviço de Jesus, dizemos que entregamos nossos problemas nas mãos de Jesus e por isso não nos preocupamos.
Muitas vezes mentimos. Mentimos porque o que encontramos na verdade foi um novo ofício para servir de esconderijo, encontramos um novo discurso que satisfaz, pois quando o assunto é transformação “divina” ou mudança pela “fé”, não se discute. Não discutem conosco e nem nós discutimos. Nos escondemos. Nos escondemos no vício, nas atividades e  no “status” de santidade que este vício nos proporciona. Nos encondemos num tal compromisso com o vício.
E onde está Jesus? Vemos nossas vidas caírem numa falta de perspectiva, sentimo-nos perturbados, perdemos quase todo tipo de controle em relação às nossas famílias. E onde está Jesus?
Pregamos libertação e graça, mas criamos um monstro de falsidade que nos prende e nos engole, desejamos muitas vezes que o juízo e não a graça impere. Pregamos salvação e continuamos presos e ainda dizemos que estamos presos a Jesus.
Somos cristãos mentirosos, enquanto pregamos que a mentira é do Diabo… é de rir de deboche, pois engraçado não é. Somos adúlteros e assassinos, por mais que não saquemos nossas armas de metal, nosso coração está pronto a matar e dificilmente a perdoar. Pregamos a favor das famílias, dizemos que é a base da sociedade, que famílias desestruturadas formam cidadãos desestruturados e sociedades doentes e muitas vezes abandonamos nossas famílias em favor do vício que, sinceramente, não tem nada a ver com Jesus. A desgraça não tem a ver com Jesus que é doador de graça.
Pior do que a desgraça é ela disfarçada de graça, escondida mas atuando plenamente com uma roupa nova. Nem todos fazemos por mal, somos enganados devido as nossas carências e deixamos nos enganar devido à falta de disposição para encarar as escolhas.
Que haja força, sinceridade e disposição para sair desse maldito esconderijo.
*

A aproximação do elogio

Gosto de elogiar as pessoas, gosto de ver algo de positivo nelas, sejam roupas, acessórios, maquiagem, estilo do cabelo, atitudes, olhares, palavras, pensamentos expressos… tudo é motivo para elogios ou pelo menos uma palavra positiva. 
O ser humano é fantástico, maravilhoso, misterioso, criativo… uma eternidade de características que não cabem em si e geralmente, no cotidiano, enxergamos muito mais as maldades e coisas negativas do que as positivas, mas todos tem algo de bom em si.
Pode ser que eu aja dessa forma para receber o mesmo em troca, pode ser. Mas sem dúvida ajo assim porque gostaria de ser tratada assim. Gosto de agir com os outros da mesma forma como gostaria que agissem comigo, independente do retorno. Não necessariamente só elogiando – isso não significa nada, qualquer pessoa “falsa” faz isso brincando, com a maior naturalidade – mas procurando ser gentil, estando disposta a ajudar, envolver-me, etc. 
Pensando bem, se fizesse isso somente para receber em troca, já teria desistido… Sou muitíssimo exigente e as ações dos outros, na maioria das vezes, não são suficientes para mim. Então, já que não tenho um retorno  à altura de minhas “doações”, poderia não doar mais! Soberba? Acho que não, verdade nua e crua, sem rodeios.
E vou arriscar generalizar. A maioria de nós não pensa no outro e sim no desgaste que é tratá-lo bem, aproximá-lo, conviver com ele e junto com ele seus numerosos problemas que estando próximos de nós, participaríamos de alguma forma, mesmo que só acompanhando.
É uma tarefa árdua olhar pro outro e ver algo de bom quando nossa mente é naturalmente egoísta e individualista, um exemplo sou eu mesma, quando falo, neste texto, sobre algo que considero qualidade, falo de mim, de minhas atitudes “boas” e quando falo do que não é bom, generalizo, não falo só de mim e sim de “todos”.
Comprova-se aqui que eu sou mais uma egoísta e individualista que luta contra o “natural” distanciamento do próximo. Só mais uma. Não querendo ser só mais uma, mas fazer nem que seja um pouco, de diferença no meio da natural maldade, buscando a natural bondade, que existe, porque é ela que me motiva a olhar pro outro e realmente me sentir feliz e tentar fazê-lo feliz também, mesmo que por um instante, mesmo que com um simples elogio.

Encontrando-me, ainda…


Autopsicografia                     
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Gentileza e esperança, havemos de ter!

Acorda Brasil! “Como será o futuro do nosso país? Brasil olha pra cima, há uma esperança, volta teus olhos pra Deus, Brasil!”
Lendo o profeta Gentileza, lembrei de alguns trechos de canções do João Alexandre e penso mesmo em como caminheremos, o que será de nós, humanos…?!, em especial, brasileiros.
A tecnologia a cada dia está mais desenvolvida, as pessoas com mais acesso a informção, as crianças mais espertas, etc. Aparentemente, deveríamos estar caminhando para melhor, mas a tecnologia é muito bem usada para o mal e nem tanto para o bem, acesso temos à informação, mas não buscamos, por isso não somos informados e nossas crianças super espertas crescem com suas mentes deturpadas focando o “ter”. Claro que estou generalizando, mas estes procederes são os mais comuns.
Queria muito que esse mundo pudesse conhecer Cristo e vivê-lo, mas há tanta indiferença em nós que nos dizemos dele, que não é muito atrativo nele crer e muito menos segui-lo.  
Não, não sei o que fazer a não ser a minha parte… mas qual será ela? Viver e viver bem, acho.
Também não sei viver sem que seja em prol do outro (claro que se eu quiser, eu saberei bem rapidinho, sou egoísta, mas tento ser menos, a cada dia tento). Não vejo Deus senão na predisposição em servir, em cuidar.
Melhor que os militares e sistemas políticos, nós cristãos, serviríamos ao Brasil com amor, paz, justiça, abnegação e outras características “tipicamente” cristãs das quais, gentileza é uma, trazendo mais esperança para o nosso país. Ainda me perco em tanta maldade, mas “ainda não é o fim…”