Aventuras de uma rolinha

Quase todas as manhãs uma rolinha invade minha sala. Acredito que ela tenha se sentido convidada por umas cascas de sementes, comida da nossa calopsita, que assopramos na sacada.

A rolinha começou como quem não quer nada, fazendo uma paradinha na sacada algumas vezes durante o dia. Meu filho certa vez ficou assustado porque achou que tinha um “bicho marrom” morando na “casinha” do ar condicionado, não queria nem chegar perto da tal casinha com receio do bicho fazer-lhe algum mal…rs.

Certo dia, saímos de casa e por causa do calor deixamos a porta que dá para sacada aberta. Quando chegamos havia um espetáculo de pontos verdes molhados pela casa inteira!  Havia não uma, mas duas rolinhas tentando sair da sala, voando desesperadas, batendo com seus bicos no vidro, achando que aquela transparência era o ar livre para onde queriam correr. E os pontos verdes molhados? Dá pra imaginar!?

Com paciência, meu marido as direcionou para fora, elas voaram rapidamente e ele encarou a saga da limpeza do chão.

Na segunda vez, acordei antes das 6h com a calopsita “apitando” bem alto, agitada e feliz da vida. Era a “amiga” dela – minha filha chama a rolinha de amiguinha da calopsita – dando novamente o ar da graça. Eu, com receio e muita dificuldade, consegui direcioná-la para a saída.

Meu filho entrou em desespero porque o bicho marrom estava cada vez mais perto dele e passou a querer, num calor de 40 graus, deixar tudo fechado com medo da rolinha entrar.

Sempre que deixamos alguma brechinha na sacada, a amiguinha da calopsita entra para papear com ela, só que a “calô” é escandalosa demais e as conversas não duram muito, já que um ser humano chega e assusta a bichinha marrom.

Da última vez, minha filha gritou desesperada: “tem um pássaro aqui!!”, enquanto a rolinha tentava, mais desesperada ainda, ultrapassar o vidro da sala.

Essa rolinha gosta mesmo de aventuras e visitar minha casa deve ser a maior delas!

Onde estão nossas lembranças?


Estive procurando fotos impressas dos meus filhos quando bebês, os dois últimos mais precisamente, e não encontrei. Estão nas nuvens ou arquivadas em discos rígidos e até em CD’s, DVD’s e pen drives.

Pessoas munidas de suas câmeras digitais – basicamente aparelhos celulares – tiram fotos à vontade, afinal, há espaço interno suficiente e ainda um cartão de memória com vários Giga.

De uns aninhos pra cá, temos tido essa facilidade de registrar tudo e todos os momentos, em todos os lugares possíveis, nos mais improváveis e até bem inconvenientes. Nos demos ao luxo de gastar nosso “rolo de filme” sem limites de fotos e, infelizmente, de senso também.
Não precisamos mais esperar todos chegarem para uma única foto ser tirada juntos, não precisamos mais controlar o “filme” pra durar uns três meses e para não gastarmos muito tendo que revelar mais de trinta e seis poses. Nem lamentarmos até às lágrimas quando a tão esperada foto sai cortada ou manchada. Podemos verificar isso tudo em tempo real! Imagino o quanto que um fotógrafo das antigas não teria a acrescentar a este trecho do texto…

Com toda essa facilitação, praticidade e por que não prazer, também não temos mais aqueles albinhos que as lojas de revelação nos entregava junto com as fotos para acomodarmos nossas fotinhos na ordem que quiséssemos e guardar nossas lembranças. Também não temos mais a organização, a diligência e o controle da época das únicas 36 poses… Sim, estou generalizando. Admiro muitíssimo quem consegue reservar tempo para selecionar 100 dentre as mil fotos digitas arquivadas, transferir para um pen drive e levar à loja para impressão ou enviar via e-mail. Confesso que já admiraria quem faz a primeira parte, porque a segunda etapa é muito tranquila diante da paciência da primeira.

Sentimos saudades ou vamos lembrar de certas pessoas e momentos quando temos que fazer um backup para formatar um computador ou encontramos um CD ou DVD de fotos perdido em alguma gaveta do armário. Geralmente, é nesses lugares agora que ficam nossas lembranças. Não mais naquela caixa cheia de fotos, que pegávamos em família pelo menos uma vez por ano ou a cada dois para rir, chorar, contar histórias e até fazer a limpa, dependendo do histórico de cada uma.
Tá tudo tão corrido e tão prático, que até as lembranças entraram nesse esquema do momento, longe da nossa memória e menos presente no depois, onde ela seria fundamental.

Relatos de uma operária sem noção

funcion

Primeiro dia como funcionária de um supermercado:
Cliente nervoso:
– Minha filha fala rápido onde posso trocar esse frasco de detergente estourado?
Funcionária uniformizada:
– Não sei, senhor. Pergunte a alguém do mercado…
Cliente mais nervoso ainda:
– E você é o quê?

Primeira semana de trabalho após retorno da licença maternidade:
Atendente de telemarketing:
– Meu nome é “tal”, com quem eu falo e em que posso ajudar?
Cliente fala sem parar, nervosamente, explicando o problema com sua linha telefônica.
Atendente cochila do nada.
Cliente grita e xinga horrores, perguntando se ainda tem alguém na linha.
Atendente desperta assustada:
– Meu nome é “tal”, com quem eu falo e em que posso ajudar?
Cliente:
– Tudo de novo??!!! É uma piranha!

Funcionária, navegando na internet, evangelizando em bate-papo, é chamada à sua missão por seu superior e responde:
– Só um instante, já respondo! O cara aqui (com quem estava “teclando”) é satanista, tô quase lá…

Leituras e sentimentos

mulhernegra

Interesso-me demais por história. Brasileira, mulher negra, busco entender os primórdios, nossa caminhada até aqui. Tenho lido livros que retratam um pouco do Brasil Império. É impressionante como me sinto excluída da história contada.

Como mulher, a submissão absurda a que fomos submetidas, sem direitos, sem vontades, tivemos que “aproveitar” as chances de um bom casamento, dinheiro e nome. Sermos boas esposas para não perder os “privilégios”, lutar com unhas, dentes e muitas artimanhas e manipulações para nos manter como a “oficial”, não permitindo que nenhuma amante ultrapassasse o limite das “aventuras” masculinas.

Coloquei no plural o parágrafo acima porque também sou mulher, mas sinceramente, isso acontecia entre as mulheres brancas. As narrações da época imperial tratam de mulheres brasileiras vindas de famílias europeias e as próprias europeias que aqui viviam.

As mulheres negras eram as escravizadas, totalmente oprimidas, usadas, tratadas de forma descartável, como coisa, objeto, nem pra ostentar serviam,  a não ser que fosse como bem material, como posse para evidenciar a riqueza e poder do “senhor”.

Não tinham direito a perfumes, joias, roupas decentes, camas confortáveis, boa alimentação. Não davam ordens, não tinham direito à família, seu marido e filhos poderiam ser mortos ou vendidos a qualquer momento e por qualquer motivo, bastava um “senhor” querer. Mulheres brancas sim, por mais tristes que fossem – e deviam ter mesmo uma vida desgraçada – ainda podiam se banhar, dormir, comer e curtir seus filhinhos sem medo de perdê-los por qualquer motivo banal.

A mulher negra não tem sua história contada no Brasil, há que se caçar pesquisas, historiadores, pessoas dedicadas a assuntos específicos relacionados a população negra para termos uma noção, pequena que seja da nossa identidade.

Bem sei que mulheres negras são fortes, ousadas, corajosas. Rainhas e princesas de dinastias africanas. Lideranças proeminentes. Sei, mas não sei detalhes. Observando e pesquisando, aos poucos vamos descortinando a visão.

Caminhos femininos, mas diferentes.

(imagem encontrada via Google)

Fofocas do Império – parte 1

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Vista da quinta com o Paço de São Cristóvão por volta de 1820. Retirada da Wikipedia.

Li um romance da Sonia Sant´Anna, Leopoldina e Pedro I. Por curiosidade, li também A Marquesa de Santos, escrito na década de 20. Atualmente, leio 1808.
Todos falam sobre a vida na corte, no tempo do império, em mil oitocentos e lá vai. Parece longe, antigo, velho, mas não há nada mais atual! Impressionante a nossa capacidade de mudar não mudando, de construir museus de novidades. Sinceramente, não sei se a esperança aumenta ou diminui diante do conhecimento da história com sua evolução inevitável e diante do ser humano que não quer saber de história e praticamente, não evolui. Ah, mas tem os que querem saber de história e se aproveitam dela pro seu bel prazer.

Bem, resolvi me divertir com os “causos” – alguns nada divertidos – citados nos livros, que por mais ficcionais que alguns sejam, têm um fundo, lateral e frente de verdade… o conteúdo, de repente é que precisaria ser aprimorado nos detalhes…

Leopoldina era princesa da Áustria, curiosa, estudiosa, inteligente, mas infelizmente, obediente… como todas as princesas ou maioria, teria que servir ao seu marido e a seu país… Mais balela não há.
Esta jovem foi enganada por um dos assessores da corte – não recordo o título correto nem o nome do ser a que me refiro – a vir para o Brasil e casar-se com Pedro I, aproveitando-se da curiosidade e interesse da moça pelo Brasil e suas riquezas naturais, como fauna e flora abundantes.
Diante da possibilidade de casar-se com um velho obeso e feio qualquer e ainda por interesses entre os reinos de Áustria e Portugal, a menina se animou a casar-se com Pedro I, jovem e bonito.
A princesinha sonhava com seu príncipe, com seu amor… desfalecia só de pensar em quando veria seu amado, pois casou-se mesmo antes de conhecê-lo pessoalmente, conhecendo-o apenas por foto/pintura.
Em contrapartida, Pedro, no auge de sua juventude, um malandrinho da corte, um “bon vivant” irresponsável, queria curtir a vida e desfrutar dos prazeres da juventude, com mulheres e aventuras mil, sem limites, incontáveis! Estava, na verdade, se lixando para casamento, queria a liberdade dos jovens sem compromisso com a coroa e a família real, porém desfrutando dos privilégios que esse vínculo lhe proporcionava.
Mas teve que casar, para o bem e a paz da família real e dos interesses das cortes europeias envolvidas no negócio, sim negócio e somente isso.

Quando Leopoldina chegou ao Brasil, feliz da vida e cheia de sonhos, logo viu que não era tudo aquilo que pensava. No início foi interessante, mas depois, Pedro foi mandando embora aqueles que amparavam a princesa por aqui, até deixá-la sozinha e sem amigos. Vivia na esbórnia com suas amantes enquanto a esposa, em casa, sofria por não ter o amor de seu amado. Ambos eram jovens quando se casaram, menos de vinte anos.
Pedro curtia sua juventude e Leopoldina em casa, ficava com os filhos e comia, comia…
Chegou a viver só, praticamente sem marido, pois este, construiu e aparelhou praticamente um palácio para uma amada amante, bem pertinho de sua casa, onde fazia festas, bebia, transava e se divertia com amigos.

A Imperatriz Leopoldina morreu jovem, aos 29 anos, triste, perturbada e abandonada em seu palácio, devido a uma hemorragia e complicações num parto. Já havia dado a luz 7 filhos e filhas.

(O texto vem carregado de impressões minhas, apesar de baseadas nas leituras. Não sou chegada a fofocas, mas cedi às “curiosidades” em se tratando dessa corte horrível, mexeriqueira e exploradora. Ô herançazinha ruim que ficou por aqui…)

Gritos do racismo: só não ouve quem não quer.

brasilDia 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Eu, negra, fui passear com minha família, negra. Fomos ao shopping. Vimos muitos negros passeando lá, como nós, porém, dentro de lojas e restaurantes, a quantidade de negros consumindo era ínfima ou nula. Feriado, shopping cheio.

Andando, vimos as moças da limpeza, a maioria negra. Num quiosque daqueles em que o café é caro e o pão de queijo também, observamos os atendentes e os clientes sentados na ilha de mesas e cadeiras cercadas, atendentes negros e clientes todos brancos.

Almoçamos em um restaurante que deveria caber umas duzentas pessoas sentadas. Estava lotado. Haviam duas famílias negras, a minha e um casal.

Entramos numa loja de departamentos para procurar um produto, os únicos negros que vi foram dois, mãe e filho.

Passamos também em uma loja que vendia sorvetes, ou melhor picolés, bem caros para simples picolés, mas saborosos demais para simples picolés. Compramos os picolés e nos sentamos dentro da loja. Ficamos ali quase dez minutos. O local estava bem movimentado, não parava de formar filas, mesmo que pequenas, no caixa. Vi dois negros, uma mulher olhando o cardápio e um rapaz que tentou comprar com um cartão refeição, que não era aceito pelo estabelecimento.

Um simples passeio, durante uma tarde inteira, num shopping do subúrbio do Rio – imagina se fosse num da zona sul! -, me fez perceber os gritos do racismo brasileiro. Se 53% da população é negra – por auto-declaração, sendo assim, sabemos que é ainda é maior, porque tem muito pardo se declarando branco por não ser “tão preto assim…” – como é que pode, num feriado, num shopping lotado do subúrbio – uma área enorme da cidade – durante, pelo menos quatro horas de observação, nem 10% dos clientes consumistas eram negros! Onde estavam os negros com “poder de compra”? Estavam viajando no feriadão? Estavam saudando o feriado da Consciência Negra, participando de eventos extras? Estavam descansando, pois só saem à noite ou pela manhã?

Tem algo muito errado… não é por acaso, não é paranoia, cisma, chatice, esquerdopatice e demais banalizações da mente crítica, é real! Observe ao seu redor!

Agora, observe as cadeias. Mais de 60% da população carcerária é negra! Coincidência? Dizem que se está preso é porque é bandido. Sigamos esta afirmação e pensemos: Por que, então, negros cometeriam mais crimes que brancos? Negros seriam mais vagabundos? Não prestariam para o trabalho ou uma vida digna? Seriam pessoas piores? Nãããão, gente! Isso é racismo, sim! Problematizem essas questões e parem de repetir discursos de ódio e preconceituosos!

Deveria ser assim: negros e brancos comprando no shopping, negros e brancos na cadeia, mas quem domina um espaço é o branco e quem “domina” o outro espaço é o negro. Por quê? Façam esta pergunta!

Desigualdade social, criminalização do negro e, especialmente, um total descaso da sociedade em relação a assuntos importantes como esse fazem parte do pacote. Isso não é vitimar o negro, é uma constatação óbvia, é só observar, não precisa grandes análises… é só olhar pro lado, pra rua, vai ver e ouvir o racismo “gritar”. Abra os ouvidos. E a cabeça.

“O subúrbio é o refúgio dos infelizes”

Citação

suburbio1950
“A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres.

O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora do seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer mais felizes.

Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas. Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro. Um “belchior” de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.

Em geral, essas brigas duram pouco. Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.

Por esse intrincado de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.”

(Trecho de Clara dos Anjos, 1948. De Lima Barreto)

Racismo reverso existe?

Achei excelente o texto abaixo. Didático e oportuno.

Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios
Não existe racismo de negros contra brancos porque este é um sistema de opressão. Negros não possuem poder institucional para serem racistas
Por: Djamila Ribeiro —

Em quase todas as discussões sobre racismo, aparece alguém para dizer que já sofreu racismo por ser branco ou que conhece um amigo que sim. Pessoa, esse texto é para você.
Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Primeiro, é necessário se ater aos conceitos. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.
Para haver racismo reverso, deveria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de 300 anos da população branca, negação de direitos a essa população. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Quem são os donos dos meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento de outro.
Em agosto deste ano, Danilo Gentili quis comparar o fato de ser chamado de palmito com o fato de um negro ser chamado de carvão. E disse ser vítima de racismo, mostrando o quanto ignora o conceito. Ser chamado de palmito pode até ser chato e de mau gosto, mas racismo não é. A estética branca não é estigmatizada. Ao contrário, é a que é colocada como bela, como padrão. Danilo Gentili cresceu num País onde pessoas como ele estão em maioria na mídia, ele desde sempre pôde se reconhecer. Pode até ser chato, mas ele não é discriminado por isso. Que poder tem uma pessoa negra de influenciar a vida dele por chamá-lo de palmito? Nenhum.
Agora, um jovem negro pode ser morto por ser negro, eu posso não ser contratada por uma empresa porque eu sou negra, ter mais dificuldades para ter acesso à universidade por conta do racismo estrutural. Isso sim tem poder de influenciar minha vida. Racismo vai além de ofensas, é um sistema que nos nega direitos.
Gentili com esse discurso de falsa simetria só mostra o quanto precisa estudar mais. Não se pode comparar situações radicalmente diferentes. Quantas vezes esse ser foi impedido de entrar em algum lugar por que é branco? Em contrapartida, a população negra tem suas escolhas limitadas. Crianças negras crescem sem auto-estima porque não se veem na TV, nos livros didáticos. Mesmo raciocínio se aplica às loiras que são vítimas de piadas de mau gosto ao serem associadas à burrice.

É óbvio que se trata de preconceito dizer que loiras são burras e isso deve ser combatido. Mas não existe uma ideologia de ódio em relação às mulheres loiras, elas não deixaram de ser a maioria das apresentadoras de TV, das estrelas de cinema, das capas de revistas por causa disso. Não são barradas em estabelecimentos por serem brancas e loiras. Sofrem com a opressão machista, sim, mas não são discriminadas por serem brancas porque o grupo racial a que fazem parte é o grupo que está no poder.
Há que se fazer a diferenciação aqui entre sofrimento e opressão. Sofrer, todos sofrem, faz parte da condição humana, mas opressão é quando um grupo detém privilégios em detrimento de outro. Ser chamado de palmito é ruim e pode machucar, mas não impede que a pessoa desfrute de um lugar privilegiado na sociedade, não causa sofrimento social.
Uma amiga, na infância, uma vez, não deixou que eu e meus irmãos entrássemos na sua festa, apesar de nos ter convidado, porque seu tio não gostava de negros. E nos servia na calçada da casa dela até que, indignados, fomos embora. Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?

Muitas vezes o que pode ocorrer é um modo de defesa, algumas pessoas negras, cansadas de sofrer racismo, agem de modo a rejeitar de modo direto a branquitude, mas isso é uma reação à opressão e também não configura racismo. Eu posso fazer uma careta e chamar alguém de branquela. A pessoa fica triste, mas que poder social essa minha atitude tem? Agora, ser xingada por ser negra é mais um elemento do racismo instituído que, além de me ofender, me nega espaço e limita minhas escolhas. Vestir nossa pele e ter empatia por nossas dores, a maioria não quer. Melhor fingir-se de vítima numa situação onde se é o algoz.

Esse discursinho barato de “brancofobia” quando a população branca é a que está nos espaços de poder faz Dandara se remexer no túmulo.
Não se pode confundir racismo com preconceito e com má educação. É errado xingar alguém, óbvio, ser chamado de palmito é feio e bobo, mas racismo não é. Para haver racismo, deve haver relação de poder, e a população negra não é a que está no poder. Acreditar em racismo reverso é mais um modo de mascarar esse racismo perverso em que vivemos. É a mesma coisa que acreditar em unicórnios, só que acreditar em cavalos com chifres não causa mal algum e não perpetua a desigualdade.

~Isidro

Fonte:Viviane Silva

Retirei de uma página do Facebook chamada Africanos de Pensamento Livre: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=457230171091164&id=281061382041378&substory_index=0

Pena de morte – História hipotética


Um mulato, de cabelos castanhos, estatura média, trajando calça escura e camiseta clara, invade uma residência localizada numa rua sombria de pouquíssima iluminação.

Lá encontra uma senhora, viúva, de aproximadamente 70 anos, já se preparando para dormir após ver a novela. Arromba a porta da frente, imobiliza-a e manda-a manter-se calada. Vizinhos, passando em frente a casa da senhora, percebem movimento estranho e chamam a polícia. Enquanto isso, o ladrão vai terminando “seus afazeres”: rouba as joias, descobre onde ficavam as economias e, por fim, intencionando não ser reconhecido, com uma faca, mata a vítima.

João da Silva, biótipo de brasileiro, operário, calça jeans e camiseta clara, está retornando à sua residência, por volta das 22 horas, quase três horas após o término de seu labor. Necessitou pegar duas conduções, viajou em pé – não havia poltronas – e percorreu a pé mais de um quilômetro, distância entre o ponto final e a casa.
Já quase chegando em casa, ouve sirene de carro policial e já imagina esconder-se. Ele não tem motivos para tal, entretanto, todas as vezes em que fora parado por batida, sofreu humilhações e, até, espancamentos. Diz-se que “esse carinhoso” tratamento é comum aos mais humildes. Não obstante, a polícia segue em frente e João, mais seguro, segue o seu rumo.

Também ouvindo a sirene, o misto de ladrão e assassino foge pela porta já arrombada e corre por um terreno ermo. Os mesmos vizinhos que já haviam chamado a polícia mantiveram-se atentos e conseguiram, embora à distância e sem muita nitidez, observar os últimos e rápidos movimentos do “gatuno”.

Dois policiais continuaram na residência tentando encontrar pistas que lhe seriam de algum interesse, enquanto os outros pegaram o carro a fim de proceder a uma busca pelas redondezas. Estes, a dois quarteirões dali, avistaram João da Silva, que tinha a sua descrição coincidindo com a do assassino. A sirene foi ligada, e João correu, correu muito -traumatizado com as experiências anteriores – porém o carro era mais rápido e ele acabou sendo alcançado e preso.
João foi a julgamento e seu veredito foi de pena máxima: a pena de morte.

Maria José Ferreira Fernandes

Seria o Estado o negligente maior?!

Pensando sobre o caso dos policiais que mataram um menor e a câmera da viatura registrou e pensando sobre a falsidade que assola o Estado…

Com todo um aparato totalmente incompetente para disciplinar menores ou ressocializá-los transformando-os em verdadeiras máquinas de maldade, pedaços de carne insensíveis dispostos a cometer vários tipos de crimes, o Estado pune “apenas” o policial que tirou a vida do menor… Mas não seria o próprio Estado quem matou esses meninos? Negligenciando aquilo para o que foi criado, que é estar a favor do bem coletivo, a favor das pessoas a quem ele tem que servir!? O policial mata seguindo o raciocínio do Estado, que não reconhece verdadeiramente a pobreza, a miséria e desigualdade como um problema que é seu! E estende os seus braços a eliminar da sociedade os “lixinhos pretinhos” – diga-se de passagem – que ainda estão por aí, “sujando” a cidade. O Estado é a maior máquina de crueldade que existe.

Não temos um sistema prisional decente. Quem entra ali sai pior e com mais ódio ainda, diante de todas as humilhações que sofre. Entendo que muitos dos presos praticaram fora o que sofrem na cadeia, sendo que, se eles vão cumprir pena pelos seus maus feitos durante um período e voltarão um dia à convivência social, eles devem ser ressocializados durante o período da pena, para quando voltarem ao convívio social, consigam viver em sociedade, respeitando e contribuindo. Não existe valor ou respeito humano dentro de uma cadeia – a não ser nas celas especiais que os “grandes” ocupam, isso quando são presos -, até onde sei, os presos “comuns”, em sua maioria, são tratados como trapos, escória… e depois são soltos! O ciclo de maldade continua em muitos casos e ainda pior do que no início da vida criminosa, acredito.
Adolescentes infratores, da mesma forma e agravado, porque saem da instituição sem terem tido o mínimo de cuidado que esta diz que ele vai ter e voltam às ruas, usando sua força e juventude aprimoradas na ilegalidade, na marginalidade e assim vão ostentando orgulhosamente seus maus feitos, sem um pingo de amor a sua própria vida, quanto mais a dos outros.

O que o Estado faz com esse povo, é, na minha opinião, condená-los à morte, sem chance de defesa, é um assassinato covarde. Falta o tiro no peito ou na cabeça, que sem demora é dado.

Aí o policial vai preso… e o Estado fica ileso.

E a maioria das pessoas valida o ato – especialmente a classe média – dizendo que bandido bom é bandido morto, que direitos humanos são pra quem é humano direito e não entende que toda essa violência e perigo se voltam sempre pra ela mesma, que tem que se trancar, gastar cada vez mais com serviços particulares e mais seguros, andar com medo por todo o canto. Que benefício há nisso?!
Seria muito interessante se os cidadãos percebessem e avaliassem seu papel na sociedade

Não justifica a ação dos policiais, mas que é tudo um grande jogo, é e a ação deles é o estopim.
É a ação maldosa do Davi que bota o fiel Urias na frente de batalha, para o seu bel prazer…