Já refletiu sobre a sua condição de vaca?

Fui chamada de vaca (parte 1)

Morava em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro e trabalhava no Centro do Rio.

Estava grávida de 8 meses, inchada com um tremendo barrigão.

Entrei no trem para ir ao trabalho e me acomodei em pé. 

O trem estava cheio.

Todos os que estavam sentados imediatamente “dormiram”, homens e mulheres.

Tudo bem, já estava acostumada com esse sono repentino que ‘baixa” na pessoa que se vê obrigada a ceder o lugar.

Fiquei em pé.

Em uma das estações, um homem levantou para descer.

Ele estava sentado na minha frente, mas não exatamente, um pouco mais à esquerda.

Exatamente na frente dele havia uma mulher.

Assim que ele levantou e o lugar vagou, passei por baixo do braço da mulher que segurava uma das “alças” de ferro para apoio de quem viajava em pé.

Ela ficou irritadíssima e me chamou de vaca. 

Ela também queria sentar, provavelmente também passaria o dia inteiro no trabalho e no fim do dia ou à noite, voltaria pra casa cansada e em pé num trem cheio, assim como eu.

Eu não era melhor que ela em aspecto algum e gravidez não é doença mesmo, só dá um cansaço maiorzinho e requer sim, alguns cuidados a mais.

Ouvi aquele “vaca” e fiquei sentida demais pra responder. Senti vontade de chorar. Senti muito ódio também e quis não ter barriga, para agredi-la com todo meu furor.

Não fiz nada. Fingi que não escutei e segui a viagem, num sono repentino…

Sempre que entra uma mulher com criança de colo ou grávida, se eu estiver sentada, levanto, mesmo contrariada. Agradeço minhas pernas saudáveis. Se estiver em pé, dou logo um grito avisando que tem uma mulher grávida ou com criança de colo que precisa sentar. Sempre alguém se constrange e levanta. Mas os que estão dormindo, não acordam nem com gritos.

Fui chamada de vaca (parte 2)
Numa das salas do prédio da igreja, amamentava um dos meus filhos.

Havia bastante leite em meu peito. Eu amava amamentar.

Enquanto dava de mamar, conversava com algumas irmãs de fé sobre coisas triviais.

Uma delas, uma senhora, estava em pé na minha frente.

Quando fui passar a criança pro outro peito, espremi o peito e vários jatinhos finos de leite espirraram em cima da irmã, molhando sua roupa, seu rosto, seus óculos.

E ela sorrindo, me chamou de vaca.

Eu gargalhei e fiquei super orgulhosa de ter sido comparada, naquele momento, a uma vaca leiteira.

Terminamos tudo às gargalhadas.

Sobre vaca-mulher e mulher vaca.
“Mãe é mãe, vaca é vaca, mulher é tudo vaca.”

Esta frase pertence a uma música antiga, eu era criança quando ouvia.

A vaca por si só, sendo “só” uma vaca, não presta pra nada?

Que valor tem a mulher que é comparada à vaca? Só tem “valor” se ‘servir’ gerando e alimentando? 

É bom pensarmos nisso. Especialmente, nós, mulheres. É bom pensarmos no que nos fizeram e ainda nos fazem acreditar.

*Recomendo a leitura de O conto da Aia, de Margaret Atwood.

Atualmente velho

Durante a Flip, onde o homenageado foi Lima Barreto, ouvi muito que sua literatura se faz atual pois estamos passando por dificuldades que nos remetem ao passado. Ouvi isso com um tom meio que de surpresa, como se tivéssemos evoluído. E tenho lido artigos de incentivo à leitura de certos autores e livros porque o que escreveram há um século ou mais tem sido atual.

Sei lá, eu devo ser muito pessimista, entender as coisas de forma errada ou realmente me falta visão. Quando leio a respeito do Brasil colonial, imperial, não vejo tantos avanços na nossa sociedade.

Li que brasileiro, há mais de um século, tinha mania de grandeza e que pobre queria viver de aparência se achando o europeu ‘evoluído’.
Li que as regalias do imperador e da corte eram possíveis graças ao trabalho esvravo e todo tipo de exploração de mão de obra.
Li que as benesses eram dadas aos seus pares, seus camaradas ou com quem ele ia muito com a cara. E o critério era esse mesmo: ser da mesma estirpe ou simpatizante bem próximo.
Li que a população era analfabeta e atrasada.
Li que as pessoas negras eram violentadas em todos os sentidos que a palavra ‘violência’ possa ter, exclusivamente por serem negras.
Li que a cidade do Rio de Janeiro era um lixo, apesar de muito linda.
Li que as pessoas eram sem educação e sem o devido senso coletivo de preservação.
Li que as mulheres eram servas de seus maridos e criadas para serem belas, recatadas e do lar.
Li que os homens tinham que ser machos machistas para serem homens de verdade.
Li que as fofocas determinavam o futuro do país, simplesmente porque todo mundo acreditava e não possuía o menor filtro pra agir diferente frente às ‘conversinhas’.
Li que essas mentirinhas eram produzidas pelos interessados em se manterem no poder.
Li que as desigualdades eram grandes demais e abusivas. E que quem dominava era o homem branco e sua hereditariedade.
Li sobre a guerra de status entre as mulheres que precisavam manter seu posto caso fosse bom, contra as que precisavam ocupá-lo. Não só o posto de esposa, mas também o de amante eram disputados.
Li que as crianças não tinham vez nem vontades. Estudavam o que a sociedade definia e iam pra onde seus pais definiam, fosse convento, fosse pra ser doutor.
Li que os filhos dos ricos pintavam o diabo, faziam milhares de merdas e saíam sempre ilesos das consequências. Já o filho do pobre pagava mil vezes mais pela merda que lhe era possível fazer. E o filho do preto já tava na merda. Merda e meia. Pra este a consequência era a morte mesmo.
Li que as forças de segurança eram voltadas para assegurar o poder dos mandantes e massacrar o povo caso esse poder e controle fossem ameaçados.

Ainda vejo isso tudo. Com toda tecnologia avançada e um suposto acesso a informação e educação, a dignidade da pessoa humana ainda está constantemente em perigo, tendo que ser equilibrada num tipo de ‘andor’, sempre com cuidado e evitando maiores velocidades nas conquistas pra não cair e quebrar de vez.

Vivo num país melhorado na fachada e mais elaborado na hipocrisia.
Tudo de bom que conquistamos até aqui parece que não tem base sólida. A todo instante prestes a cair, a se desfazer, a retroceder.
Sempre os mesmos caras no poder e, claro, sempre às mesmas regras.

Não creio em perfeição alguma, mas em melhoras consideráveis, pelo menos nas questões racionais de autonomia e preservação da espécie.
Coisa velha, coisa antiga é bom sim, na história, pra não ser repetida, pra ensinar pro futuro, pra evolução, não pra preservação prática, num eterno retardo.
Tá difícil engolir esse Brasil encravado na velhice, tá difícil.

Aventuras de uma rolinha

Quase todas as manhãs uma rolinha invade minha sala. Acredito que ela tenha se sentido convidada por umas cascas de sementes, comida da nossa calopsita, que assopramos na sacada.

A rolinha começou como quem não quer nada, fazendo uma paradinha na sacada algumas vezes durante o dia. Meu filho certa vez ficou assustado porque achou que tinha um “bicho marrom” morando na “casinha” do ar condicionado, não queria nem chegar perto da tal casinha com receio do bicho fazer-lhe algum mal…rs.

Certo dia, saímos de casa e por causa do calor deixamos a porta que dá para sacada aberta. Quando chegamos havia um espetáculo de pontos verdes molhados pela casa inteira!  Havia não uma, mas duas rolinhas tentando sair da sala, voando desesperadas, batendo com seus bicos no vidro, achando que aquela transparência era o ar livre para onde queriam correr. E os pontos verdes molhados? Dá pra imaginar!?

Com paciência, meu marido as direcionou para fora, elas voaram rapidamente e ele encarou a saga da limpeza do chão.

Na segunda vez, acordei antes das 6h com a calopsita “apitando” bem alto, agitada e feliz da vida. Era a “amiga” dela – minha filha chama a rolinha de amiguinha da calopsita – dando novamente o ar da graça. Eu, com receio e muita dificuldade, consegui direcioná-la para a saída.

Meu filho entrou em desespero porque o bicho marrom estava cada vez mais perto dele e passou a querer, num calor de 40 graus, deixar tudo fechado com medo da rolinha entrar.

Sempre que deixamos alguma brechinha na sacada, a amiguinha da calopsita entra para papear com ela, só que a “calô” é escandalosa demais e as conversas não duram muito, já que um ser humano chega e assusta a bichinha marrom.

Da última vez, minha filha gritou desesperada: “tem um pássaro aqui!!”, enquanto a rolinha tentava, mais desesperada ainda, ultrapassar o vidro da sala.

Essa rolinha gosta mesmo de aventuras e visitar minha casa deve ser a maior delas!

Onde estão nossas lembranças?


Estive procurando fotos impressas dos meus filhos quando bebês, os dois últimos mais precisamente, e não encontrei. Estão nas nuvens ou arquivadas em discos rígidos e até em CD’s, DVD’s e pen drives.

Pessoas munidas de suas câmeras digitais – basicamente aparelhos celulares – tiram fotos à vontade, afinal, há espaço interno suficiente e ainda um cartão de memória com vários Giga.

De uns aninhos pra cá, temos tido essa facilidade de registrar tudo e todos os momentos, em todos os lugares possíveis, nos mais improváveis e até bem inconvenientes. Nos demos ao luxo de gastar nosso “rolo de filme” sem limites de fotos e, infelizmente, de senso também.
Não precisamos mais esperar todos chegarem para uma única foto ser tirada juntos, não precisamos mais controlar o “filme” pra durar uns três meses e para não gastarmos muito tendo que revelar mais de trinta e seis poses. Nem lamentarmos até às lágrimas quando a tão esperada foto sai cortada ou manchada. Podemos verificar isso tudo em tempo real! Imagino o quanto que um fotógrafo das antigas não teria a acrescentar a este trecho do texto…

Com toda essa facilitação, praticidade e por que não prazer, também não temos mais aqueles albinhos que as lojas de revelação nos entregava junto com as fotos para acomodarmos nossas fotinhos na ordem que quiséssemos e guardar nossas lembranças. Também não temos mais a organização, a diligência e o controle da época das únicas 36 poses… Sim, estou generalizando. Admiro muitíssimo quem consegue reservar tempo para selecionar 100 dentre as mil fotos digitas arquivadas, transferir para um pen drive e levar à loja para impressão ou enviar via e-mail. Confesso que já admiraria quem faz a primeira parte, porque a segunda etapa é muito tranquila diante da paciência da primeira.

Sentimos saudades ou vamos lembrar de certas pessoas e momentos quando temos que fazer um backup para formatar um computador ou encontramos um CD ou DVD de fotos perdido em alguma gaveta do armário. Geralmente, é nesses lugares agora que ficam nossas lembranças. Não mais naquela caixa cheia de fotos, que pegávamos em família pelo menos uma vez por ano ou a cada dois para rir, chorar, contar histórias e até fazer a limpa, dependendo do histórico de cada uma.
Tá tudo tão corrido e tão prático, que até as lembranças entraram nesse esquema do momento, longe da nossa memória e menos presente no depois, onde ela seria fundamental.

Relatos de uma operária sem noção

funcion

Primeiro dia como funcionária de um supermercado:
Cliente nervoso:
– Minha filha fala rápido onde posso trocar esse frasco de detergente estourado?
Funcionária uniformizada:
– Não sei, senhor. Pergunte a alguém do mercado…
Cliente mais nervoso ainda:
– E você é o quê?

Primeira semana de trabalho após retorno da licença maternidade:
Atendente de telemarketing:
– Meu nome é “tal”, com quem eu falo e em que posso ajudar?
Cliente fala sem parar, nervosamente, explicando o problema com sua linha telefônica.
Atendente cochila do nada.
Cliente grita e xinga horrores, perguntando se ainda tem alguém na linha.
Atendente desperta assustada:
– Meu nome é “tal”, com quem eu falo e em que posso ajudar?
Cliente:
– Tudo de novo??!!! É uma piranha!

Funcionária, navegando na internet, evangelizando em bate-papo, é chamada à sua missão por seu superior e responde:
– Só um instante, já respondo! O cara aqui (com quem estava “teclando”) é satanista, tô quase lá…

Leituras e sentimentos

mulhernegra

Interesso-me demais por história. Brasileira, mulher negra, busco entender os primórdios, nossa caminhada até aqui. Tenho lido livros que retratam um pouco do Brasil Império. É impressionante como me sinto excluída da história contada.

Como mulher, a submissão absurda a que fomos submetidas, sem direitos, sem vontades, tivemos que “aproveitar” as chances de um bom casamento, dinheiro e nome. Sermos boas esposas para não perder os “privilégios”, lutar com unhas, dentes e muitas artimanhas e manipulações para nos manter como a “oficial”, não permitindo que nenhuma amante ultrapassasse o limite das “aventuras” masculinas.

Coloquei no plural o parágrafo acima porque também sou mulher, mas sinceramente, isso acontecia entre as mulheres brancas. As narrações da época imperial tratam de mulheres brasileiras vindas de famílias europeias e as próprias europeias que aqui viviam.

As mulheres negras eram as escravizadas, totalmente oprimidas, usadas, tratadas de forma descartável, como coisa, objeto, nem pra ostentar serviam,  a não ser que fosse como bem material, como posse para evidenciar a riqueza e poder do “senhor”.

Não tinham direito a perfumes, joias, roupas decentes, camas confortáveis, boa alimentação. Não davam ordens, não tinham direito à família, seu marido e filhos poderiam ser mortos ou vendidos a qualquer momento e por qualquer motivo, bastava um “senhor” querer. Mulheres brancas sim, por mais tristes que fossem – e deviam ter mesmo uma vida desgraçada – ainda podiam se banhar, dormir, comer e curtir seus filhinhos sem medo de perdê-los por qualquer motivo banal.

A mulher negra não tem sua história contada no Brasil, há que se caçar pesquisas, historiadores, pessoas dedicadas a assuntos específicos relacionados a população negra para termos uma noção, pequena que seja da nossa identidade.

Bem sei que mulheres negras são fortes, ousadas, corajosas. Rainhas e princesas de dinastias africanas. Lideranças proeminentes. Sei, mas não sei detalhes. Observando e pesquisando, aos poucos vamos descortinando a visão.

Caminhos femininos, mas diferentes.

(imagem encontrada via Google)

Fofocas do Império – parte 1

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Vista da quinta com o Paço de São Cristóvão por volta de 1820. Retirada da Wikipedia.

Li um romance da Sonia Sant´Anna, Leopoldina e Pedro I. Por curiosidade, li também A Marquesa de Santos, escrito na década de 20. Atualmente, leio 1808.
Todos falam sobre a vida na corte, no tempo do império, em mil oitocentos e lá vai. Parece longe, antigo, velho, mas não há nada mais atual! Impressionante a nossa capacidade de mudar não mudando, de construir museus de novidades. Sinceramente, não sei se a esperança aumenta ou diminui diante do conhecimento da história com sua evolução inevitável e diante do ser humano que não quer saber de história e praticamente, não evolui. Ah, mas tem os que querem saber de história e se aproveitam dela pro seu bel prazer.

Bem, resolvi me divertir com os “causos” – alguns nada divertidos – citados nos livros, que por mais ficcionais que alguns sejam, têm um fundo, lateral e frente de verdade… o conteúdo, de repente é que precisaria ser aprimorado nos detalhes…

Leopoldina era princesa da Áustria, curiosa, estudiosa, inteligente, mas infelizmente, obediente… como todas as princesas ou maioria, teria que servir ao seu marido e a seu país… Mais balela não há.
Esta jovem foi enganada por um dos assessores da corte – não recordo o título correto nem o nome do ser a que me refiro – a vir para o Brasil e casar-se com Pedro I, aproveitando-se da curiosidade e interesse da moça pelo Brasil e suas riquezas naturais, como fauna e flora abundantes.
Diante da possibilidade de casar-se com um velho obeso e feio qualquer e ainda por interesses entre os reinos de Áustria e Portugal, a menina se animou a casar-se com Pedro I, jovem e bonito.
A princesinha sonhava com seu príncipe, com seu amor… desfalecia só de pensar em quando veria seu amado, pois casou-se mesmo antes de conhecê-lo pessoalmente, conhecendo-o apenas por foto/pintura.
Em contrapartida, Pedro, no auge de sua juventude, um malandrinho da corte, um “bon vivant” irresponsável, queria curtir a vida e desfrutar dos prazeres da juventude, com mulheres e aventuras mil, sem limites, incontáveis! Estava, na verdade, se lixando para casamento, queria a liberdade dos jovens sem compromisso com a coroa e a família real, porém desfrutando dos privilégios que esse vínculo lhe proporcionava.
Mas teve que casar, para o bem e a paz da família real e dos interesses das cortes europeias envolvidas no negócio, sim negócio e somente isso.

Quando Leopoldina chegou ao Brasil, feliz da vida e cheia de sonhos, logo viu que não era tudo aquilo que pensava. No início foi interessante, mas depois, Pedro foi mandando embora aqueles que amparavam a princesa por aqui, até deixá-la sozinha e sem amigos. Vivia na esbórnia com suas amantes enquanto a esposa, em casa, sofria por não ter o amor de seu amado. Ambos eram jovens quando se casaram, menos de vinte anos.
Pedro curtia sua juventude e Leopoldina em casa, ficava com os filhos e comia, comia…
Chegou a viver só, praticamente sem marido, pois este, construiu e aparelhou praticamente um palácio para uma amada amante, bem pertinho de sua casa, onde fazia festas, bebia, transava e se divertia com amigos.

A Imperatriz Leopoldina morreu jovem, aos 29 anos, triste, perturbada e abandonada em seu palácio, devido a uma hemorragia e complicações num parto. Já havia dado a luz 7 filhos e filhas.

(O texto vem carregado de impressões minhas, apesar de baseadas nas leituras. Não sou chegada a fofocas, mas cedi às “curiosidades” em se tratando dessa corte horrível, mexeriqueira e exploradora. Ô herançazinha ruim que ficou por aqui…)

Gritos do racismo: só não ouve quem não quer.

brasilDia 20 de novembro, dia da Consciência Negra. Eu, negra, fui passear com minha família, negra. Fomos ao shopping. Vimos muitos negros passeando lá, como nós, porém, dentro de lojas e restaurantes, a quantidade de negros consumindo era ínfima ou nula. Feriado, shopping cheio.

Andando, vimos as moças da limpeza, a maioria negra. Num quiosque daqueles em que o café é caro e o pão de queijo também, observamos os atendentes e os clientes sentados na ilha de mesas e cadeiras cercadas, atendentes negros e clientes todos brancos.

Almoçamos em um restaurante que deveria caber umas duzentas pessoas sentadas. Estava lotado. Haviam duas famílias negras, a minha e um casal.

Entramos numa loja de departamentos para procurar um produto, os únicos negros que vi foram dois, mãe e filho.

Passamos também em uma loja que vendia sorvetes, ou melhor picolés, bem caros para simples picolés, mas saborosos demais para simples picolés. Compramos os picolés e nos sentamos dentro da loja. Ficamos ali quase dez minutos. O local estava bem movimentado, não parava de formar filas, mesmo que pequenas, no caixa. Vi dois negros, uma mulher olhando o cardápio e um rapaz que tentou comprar com um cartão refeição, que não era aceito pelo estabelecimento.

Um simples passeio, durante uma tarde inteira, num shopping do subúrbio do Rio – imagina se fosse num da zona sul! -, me fez perceber os gritos do racismo brasileiro. Se 53% da população é negra – por auto-declaração, sendo assim, sabemos que é ainda é maior, porque tem muito pardo se declarando branco por não ser “tão preto assim…” – como é que pode, num feriado, num shopping lotado do subúrbio – uma área enorme da cidade – durante, pelo menos quatro horas de observação, nem 10% dos clientes consumistas eram negros! Onde estavam os negros com “poder de compra”? Estavam viajando no feriadão? Estavam saudando o feriado da Consciência Negra, participando de eventos extras? Estavam descansando, pois só saem à noite ou pela manhã?

Tem algo muito errado… não é por acaso, não é paranoia, cisma, chatice, esquerdopatice e demais banalizações da mente crítica, é real! Observe ao seu redor!

Agora, observe as cadeias. Mais de 60% da população carcerária é negra! Coincidência? Dizem que se está preso é porque é bandido. Sigamos esta afirmação e pensemos: Por que, então, negros cometeriam mais crimes que brancos? Negros seriam mais vagabundos? Não prestariam para o trabalho ou uma vida digna? Seriam pessoas piores? Nãããão, gente! Isso é racismo, sim! Problematizem essas questões e parem de repetir discursos de ódio e preconceituosos!

Deveria ser assim: negros e brancos comprando no shopping, negros e brancos na cadeia, mas quem domina um espaço é o branco e quem “domina” o outro espaço é o negro. Por quê? Façam esta pergunta!

Desigualdade social, criminalização do negro e, especialmente, um total descaso da sociedade em relação a assuntos importantes como esse fazem parte do pacote. Isso não é vitimar o negro, é uma constatação óbvia, é só observar, não precisa grandes análises… é só olhar pro lado, pra rua, vai ver e ouvir o racismo “gritar”. Abra os ouvidos. E a cabeça.

“O subúrbio é o refúgio dos infelizes”

Citação

suburbio1950
“A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres.

O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora do seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer mais felizes.

Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas. Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro. Um “belchior” de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.

Em geral, essas brigas duram pouco. Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.

Por esse intrincado de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.”

(Trecho de Clara dos Anjos, 1948. De Lima Barreto)

Racismo reverso existe?

Achei excelente o texto abaixo. Didático e oportuno.

Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios
Não existe racismo de negros contra brancos porque este é um sistema de opressão. Negros não possuem poder institucional para serem racistas
Por: Djamila Ribeiro —

Em quase todas as discussões sobre racismo, aparece alguém para dizer que já sofreu racismo por ser branco ou que conhece um amigo que sim. Pessoa, esse texto é para você.
Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Primeiro, é necessário se ater aos conceitos. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.
Para haver racismo reverso, deveria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de 300 anos da população branca, negação de direitos a essa população. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Quem são os donos dos meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento de outro.
Em agosto deste ano, Danilo Gentili quis comparar o fato de ser chamado de palmito com o fato de um negro ser chamado de carvão. E disse ser vítima de racismo, mostrando o quanto ignora o conceito. Ser chamado de palmito pode até ser chato e de mau gosto, mas racismo não é. A estética branca não é estigmatizada. Ao contrário, é a que é colocada como bela, como padrão. Danilo Gentili cresceu num País onde pessoas como ele estão em maioria na mídia, ele desde sempre pôde se reconhecer. Pode até ser chato, mas ele não é discriminado por isso. Que poder tem uma pessoa negra de influenciar a vida dele por chamá-lo de palmito? Nenhum.
Agora, um jovem negro pode ser morto por ser negro, eu posso não ser contratada por uma empresa porque eu sou negra, ter mais dificuldades para ter acesso à universidade por conta do racismo estrutural. Isso sim tem poder de influenciar minha vida. Racismo vai além de ofensas, é um sistema que nos nega direitos.
Gentili com esse discurso de falsa simetria só mostra o quanto precisa estudar mais. Não se pode comparar situações radicalmente diferentes. Quantas vezes esse ser foi impedido de entrar em algum lugar por que é branco? Em contrapartida, a população negra tem suas escolhas limitadas. Crianças negras crescem sem auto-estima porque não se veem na TV, nos livros didáticos. Mesmo raciocínio se aplica às loiras que são vítimas de piadas de mau gosto ao serem associadas à burrice.

É óbvio que se trata de preconceito dizer que loiras são burras e isso deve ser combatido. Mas não existe uma ideologia de ódio em relação às mulheres loiras, elas não deixaram de ser a maioria das apresentadoras de TV, das estrelas de cinema, das capas de revistas por causa disso. Não são barradas em estabelecimentos por serem brancas e loiras. Sofrem com a opressão machista, sim, mas não são discriminadas por serem brancas porque o grupo racial a que fazem parte é o grupo que está no poder.
Há que se fazer a diferenciação aqui entre sofrimento e opressão. Sofrer, todos sofrem, faz parte da condição humana, mas opressão é quando um grupo detém privilégios em detrimento de outro. Ser chamado de palmito é ruim e pode machucar, mas não impede que a pessoa desfrute de um lugar privilegiado na sociedade, não causa sofrimento social.
Uma amiga, na infância, uma vez, não deixou que eu e meus irmãos entrássemos na sua festa, apesar de nos ter convidado, porque seu tio não gostava de negros. E nos servia na calçada da casa dela até que, indignados, fomos embora. Alguma pessoa branca já passou por isso exclusivamente por ser branca?

Muitas vezes o que pode ocorrer é um modo de defesa, algumas pessoas negras, cansadas de sofrer racismo, agem de modo a rejeitar de modo direto a branquitude, mas isso é uma reação à opressão e também não configura racismo. Eu posso fazer uma careta e chamar alguém de branquela. A pessoa fica triste, mas que poder social essa minha atitude tem? Agora, ser xingada por ser negra é mais um elemento do racismo instituído que, além de me ofender, me nega espaço e limita minhas escolhas. Vestir nossa pele e ter empatia por nossas dores, a maioria não quer. Melhor fingir-se de vítima numa situação onde se é o algoz.

Esse discursinho barato de “brancofobia” quando a população branca é a que está nos espaços de poder faz Dandara se remexer no túmulo.
Não se pode confundir racismo com preconceito e com má educação. É errado xingar alguém, óbvio, ser chamado de palmito é feio e bobo, mas racismo não é. Para haver racismo, deve haver relação de poder, e a população negra não é a que está no poder. Acreditar em racismo reverso é mais um modo de mascarar esse racismo perverso em que vivemos. É a mesma coisa que acreditar em unicórnios, só que acreditar em cavalos com chifres não causa mal algum e não perpetua a desigualdade.

~Isidro

Fonte:Viviane Silva

Retirei de uma página do Facebook chamada Africanos de Pensamento Livre: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=457230171091164&id=281061382041378&substory_index=0