Minha amiga genial


Estou lendo um livro da Elena Ferrante, A amiga genial. Ainda estou no início. Uma leitura por meio de arquivo eletrônico, no celular, no Kindle… Uma leitura descomprometida.

Geralmente, tudo o que leio me instiga a escrever, mas se o tempo e concentração que preciso pra ler já são meio escassos, imagina pra escrever… Não consigo administrar isso e me perco nos pensamentos, que não voltam, não aguardam o tempo ficar disponível, não esperam nada, são muito autoritários, ou é a vez deles ou não será nunca mais.

Por isso, tive que vir escrever, mesmo de madrugada, durante uma leitura despretensiosa dessas pra esperar o sono voltar. Milhares de coisas, dessa vez lembranças passam pela minha cabeça e aproveitei a madrugada silenciosa pra não perder mais um escrito, obedecendo a tal inspiração pra escrever.

Tenho algumas amigas geniais, mas gostaria de destacar uma em especial, uma que parece muito com uma das personagens do livro, uma sobre a qual ainda tenho olhos e amor infantis… Rosilene.
Estudei no que chamávamos de Brizolão, com muitas crianças extremamente espertas e uma delas me marcou demais, uma menina genial.
No livro, que ainda não sei como vai terminar e por isso ainda posso citá-lo, porque depois toda história pode mudar e tudo o que penso agora se desfazer, não havendo semelhança com a vida real que vi ali. 

Rosilene era magra e alta. Pernas longas, pés ligeiros, língua afiada, mãos fortes e um ar moleque descontraído e natural. E era muito inteligente.
Nunca fui de correr – eu não sabia mesmo correr – ou boa jogadora em qualquer esporte que exigisse agilidade corporal e coordenação motora em terra firme – sei nadar muito bem e só. Eu também não fazia amizades com muita facilidade, era meio tímida – ainda um bocado até hoje. Nunca dei muito valor a provar que tinha algum tipo de coragem, tinha coragem na hora q precisava dela e o troço vinha e ponto, acabava depois, até o próximo arroubo. Eu era uma menina simples, simpática e inteligente.

Ela corria, pulava, jogava muito bem queimado ou qualquer outro tipo de jogo com bola, na verdade qualquer outro tipo de jogo. Estava sempre no ranking das primeiras escolhidas a compor times.
Falava tudo o que vinha à mente, era muito abusada e parecia treinar a coragem constantemente.

Se tivesse que bater, batia, não era muito misericordiosa, não. Na adolescência, esse “muito” até sumiu da frase, não era mesmo.

Minha amiga, minha melhor amiga. Ciumenta, absurdamente ciumenta. Eu tinha um orgulho dela… Via tudo como qualidade e curtia tudo. Era muito divertida e debochada, expressiva em tudo o que fazia e falava. Eu era meio inexpressiva, a não ser o sorriso, meu sorriso era resposta pra tudo. A Rosi (sim, com “i”) ria, ela não dava sorrisos, ela ria de alegria ou de deboche, ria dela ou de alguém sem pudor algum. 

Certa vez acho que viajou, não lembro bem, sei que teve que se ausentar da escola por um tempo. Quando retornou tinha um monte de conteúdo que ela havia perdido. O que precisava ler, ela estudou sozinha, mas matemática, sentamos juntas pra estudar. Lembro que nas operações haviam parênteses e muita multiplicação. Ela tirou de letra, fez as provas e se saiu muito bem em tudo.

Nunca foi apegada a nada e me ensinou bastante sobre isso. Tudo ela oferecia e emprestava, eu não. Ela fazia uma cara de indignação e já ia abria a boca pra reclamar, eu rapidamente desdezia o não empréstimo. Chegou um tempo que o que era dela era meu e vice-versa. Ela pensava em mim… Tal roupa vai ficar linda em vc, ela dizia. Era muito dedicada, amigona, parceira, minha defensora em tudo, minha irmã.
Tínhamos a mesma altura, dez quilos de diferença entre uma e outra, crescemos contando isso, da infância a adolescência, sempre dez quilos, eu com os mais, ela com os menos dez.

Passamos por muitas aventuras juntas. Viajando pra São Gonçalo ou hospedadas em Ipanema. No ritmo do baile funk, em casa ouvindo os discos de Caetano, Gil e Cazuza ou caminhando pelas ruas. Sempre eu com ela e ela comigo.

Rosi era tomada de iniciativa, cheia de atitude e de decisão, inclusive pra fazer “merda”. Não tinha meio termo. Enquanto eu pensava ela decidia. E sempre assumia as consequências, nunca a vi fugir de nada. Também não tinha vergonha de voltar atrás, voltava muitas vezes e ficava muito bem com tudo o que fazia. Nunca a vi choramingar pelo “leite derramado”.

Ela nasceu pra viver a vida, não se negar a experiências e mesmo assim manter-se em equilíbrio… Uma equilibrista da vida.

E eu que agora leio lentamente meus livrinhos e me considero “leitora”, lembro perfeitamente dos livros grossos que ela lia aos 12 anos, rapidamente. Leitora nata.
Não é mais uma menina, é avó! Uma avó bem novinha, mas avó. Vai ser daquelas tipo vovozona, pra bagunça, pro deleite, pro cuidado. 
Não fui uma amiga genial, infelizmente, tenho certeza disso.
Também estou certa de que ela tem pessoas geniais pertinho, pros momentos que só amigos podem participar.

Onde estão nossas lembranças?


Estive procurando fotos impressas dos meus filhos quando bebês, os dois últimos mais precisamente, e não encontrei. Estão nas nuvens ou arquivadas em discos rígidos e até em CD’s, DVD’s e pen drives.

Pessoas munidas de suas câmeras digitais – basicamente aparelhos celulares – tiram fotos à vontade, afinal, há espaço interno suficiente e ainda um cartão de memória com vários Giga.

De uns aninhos pra cá, temos tido essa facilidade de registrar tudo e todos os momentos, em todos os lugares possíveis, nos mais improváveis e até bem inconvenientes. Nos demos ao luxo de gastar nosso “rolo de filme” sem limites de fotos e, infelizmente, de senso também.
Não precisamos mais esperar todos chegarem para uma única foto ser tirada juntos, não precisamos mais controlar o “filme” pra durar uns três meses e para não gastarmos muito tendo que revelar mais de trinta e seis poses. Nem lamentarmos até às lágrimas quando a tão esperada foto sai cortada ou manchada. Podemos verificar isso tudo em tempo real! Imagino o quanto que um fotógrafo das antigas não teria a acrescentar a este trecho do texto…

Com toda essa facilitação, praticidade e por que não prazer, também não temos mais aqueles albinhos que as lojas de revelação nos entregava junto com as fotos para acomodarmos nossas fotinhos na ordem que quiséssemos e guardar nossas lembranças. Também não temos mais a organização, a diligência e o controle da época das únicas 36 poses… Sim, estou generalizando. Admiro muitíssimo quem consegue reservar tempo para selecionar 100 dentre as mil fotos digitas arquivadas, transferir para um pen drive e levar à loja para impressão ou enviar via e-mail. Confesso que já admiraria quem faz a primeira parte, porque a segunda etapa é muito tranquila diante da paciência da primeira.

Sentimos saudades ou vamos lembrar de certas pessoas e momentos quando temos que fazer um backup para formatar um computador ou encontramos um CD ou DVD de fotos perdido em alguma gaveta do armário. Geralmente, é nesses lugares agora que ficam nossas lembranças. Não mais naquela caixa cheia de fotos, que pegávamos em família pelo menos uma vez por ano ou a cada dois para rir, chorar, contar histórias e até fazer a limpa, dependendo do histórico de cada uma.
Tá tudo tão corrido e tão prático, que até as lembranças entraram nesse esquema do momento, longe da nossa memória e menos presente no depois, onde ela seria fundamental.

Recordações

fredvilma

Lembrei de quando, no início do nosso casamento, no primeiro ou segundo mês, meu preto saiu do trabalho, encarou horas no ônibus de volta pra casa e ainda foi ao mercado. Foi fazer compras. Acho que eu não fui junto para não gastarmos muito dinheiro de passagem.
Ele foi… Levou uma bolsa de napa, bem grande, que estava perdida entre nossas poucas coisas. Fez as compras no mercado e voltou… Voltou com a bolsa nas costas – estilo Papai Noel, pois ela tinha meio que o formato de um saco – com nossa comida dentro: arroz, feijão, açúcar, leite, óleo, “misturas”, como dizia minha avó. Lembro que estava pesada, lembro dele cansado, pois voltou a pé para economizar a passagem, andou por volta de meia hora. Estava cansado, mas estava sorrindo, feliz por poder trazer nosso alimento.
Boas lembranças… nossas histórias…