“O subúrbio é o refúgio dos infelizes”

Citação

suburbio1950
“A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres.

O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora do seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer mais felizes.

Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas. Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro. Um “belchior” de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.

Em geral, essas brigas duram pouco. Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.

Por esse intrincado de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.”

(Trecho de Clara dos Anjos, 1948. De Lima Barreto)

“Um museu de grandes novidades”

Estou apaixonada por Lima Barreto. Venho, aos trancos e barrancos, bem lentamente, buscando ler clássicos da literatura brasileira. Li uns cinco autores diferentes e Lima Barreto se pareceu comigo e eu com ele… Me leio nele, me vejo nele… Ele falou o que eu falo, criticou o que critico, pensou o que penso, levantou a mesma bandeira que eu… Tinha os mesmos anseios… Eu é que falo e penso como ele, pois vim depois. E nos encontramos nisso porque vivemos os mesmos problemas sociais! Em cem anos, vivemos os mesmos problemas! Meu Deus, como a história é dura, desanimadora e assustadora! É olhar pro futuro e ver o passado! Como nós somos burros e preguiçosos… O Brasil é um país jovem, tem muito a aprender, crescer e aparecer, claro que muita coisa mudou, coisas boas aconteceram, mas as raízes dos nossos piores problemas ainda estão presentes, intactas… Cortamos seus galhos, e até troncos, mas não fomos capazes ainda de arrancar suas raízes. Teimamos em estimá-las. E como Lima Barreto fala do Rio, da zona norte! E ainda morou perto de mim… É muito encontro pra um século só…rs. Ainda tenho que ler muito mais dele e de suas obras, mas está sendo amor a primeira vista, desde que “vi” o escrivão Isaías.

Leituras e mais leituras

Acabei de ler “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto. O livro foi escrito há 100 anos e mesmo assim, vi o hoje nessa leitura. 
Meio triste, mas denunciador da hipocrisia, dos jeitinhos, do preconceito, dos interesses escusos. Gostei do livro e gostei de Lima Barreto. 
Não havia me interessado antes por esses clássicos da Literatura Brasileira, mas como amante das palavras, não pude fugir desse tipo de leitura, o que ajudou-me a sair um pouco da fissura por teologia para outras viagens. Porém, em se tratando de pessoas contando histórias e histórias de pessoas, volto sempre à Teologia, ou nunca saio dela…
Bem, acho mesmo que não vou gostar é do Nelson Rodrigues. Melhor eu dizer isso (ou não) depois que lê-lo, minha opinião agora é puro pré-conceito… (rs).

Um século de “capital” puro na veia!

“- Que são dez ou vintemil contos que o Estado gaste! Em menos de cinco anos, só com as visitas dos estrangeiros, esse capital é recuperado… Há cidade no mundo no mundo com tantas belezas naturais como esta?
[…] Esforçavam-se por obter as medidas legislativas favoráveis à transformação da cidade e ao enriquecimento dos patrimônios respectivos com indenizações fabulosas e especulações sobre terrenos. […] Queriam também uma população catita, limpinha, elegante e branca.”

O trecho acima foi retirado do livro “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto. Escrito há 100 anos. Alguma semelhança com o projeto de governo do atual prefeito do Rio de Janeiro?
Expulsa-se os pobres, vende-se a cidade aos estrangeiros às mega empresas e ganha-se bastante dinheiro. Será que esse é o tipo de cidade que queremos? O que a população ganha realmente com isso? Será que isso é progresso? À custa da exploração de pessoas e de dinheiro público?
A mim este modelo de cidade não agrada. Quero inclusão, dedicação do governo ao povo para a longo prazo termos uma população menos desigual.

Não, não quero vender meu país nem minha cidade, Sr. Prefeito!

A Imprensa! Que Quadrilha!

“Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: […] um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda prova… E assim dominam tudo […] fazem com que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação […]. E como eles aproveitam esse poder que lhe dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis, trabalham para a seleção das mediocridades…
[…] é a mais tirânica manifestação do capitalismo e a mais terrível também […]. São grandes empresas, propriedade de venturosos donos, destinadas a lhes dar o domínio sobre as massas em cuja linguagem falam e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores […]. E por detrás delas estão os estrangeiros, senão inimigos nossos, mas quase sempre indiferentes às nossas aspirações.”

Trecho retirado do livro “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (1909), de Lima Barreto.

Em 100 anos, alguma coisa mudou? Quem “domina” o Brasil ainda é um “jornal”…